Sobre a música, essa paixão que é capaz de mover os sentimentos mais profundos

Quando eu tinha 13 anos, já começava a pensar no meu futuro, qual seria a minha profissão. Como boa filha de médicos, naturalmente considerava essa opção. Pensava na cardiologia, por admiração à minha mãe (mais tarde, através de um exercício bolado pelo meu pai – sem envolver sangue ou qualquer coisa que pudesse me causar desmaios – descobri que tinha aptidão para dar nós cirúrgicos, vejam só!). Também pensei na psicologia, pois comecei a fazer análise e gostei muito. Mas… e a música? Contava na escola que era pianista e muita gente achava o máximo… Eu já estava tão acostumada a ser pianista, que não via nada de mais naquilo… Apesar de amar o instrumento e a música em si… Até o dia em que eu visitei a Escola de Música da UFMG. Visitar aquele prédio bonito, novinho, cheio de plantas e que parecia brilhar de tão agradável me fez muito bem. A maior surpresa me aguardava no auditório: um piano de cauda inteira! Detalhe: a convite da minha professora, eu deveria TOCAR naquele piano uma peça que ela queria gravar! Aquele dia mudou minha vida para sempre. Cheguei em casa dizendo que o piano era quase do tamanho de um prédio, ou de um avião, de tão entusiasmada. Mas o que mais me cativou foi ver uma outra professora – que também tinha sido convidada pra tocar no dia – tocar uma peça impressionante, com muito envolvimento. Até hoje, acredito que foi essa paixão que eu vi transbordar dos meus professores que me fez escolher a profissão. Foi aí que eu vi que poderia ter algo que me dava muito prazer e alegria como uma escolha de vida, algo para o meu dia-a-dia em caráter definitivo. Depois disso, estudar música e ser pianista se tornou um grande sonho. O dia que eu vi meu nome naquela lista de aprovados do vestibular foi um dos melhores da minha vida.

Desde então, os anos passaram e a música se instalou na minha rotina. E as emoções fluem de diversas maneiras, seja na beleza das linhas melódicas criadas por Chopin, Beethoven e Villa-Lobos que estejam em determinado momento no meu estudo, seja através das peças mais singelas que meus alunos tocam, com todo um mundo de cores que tento ajudá-los a desvencilhar. Mas toda arte tem um lado que, em certos momentos, pode atrapalhar: o ego. A arte passa muito pelo narcísico, e muitas vezes exige de nós a perfeição. E isso, junto com o cotidiano, pode nos fazer esquecer do potencial transformador da música.

Mas aí a vida trata de nos dar umas cutucadas! Outro dia mesmo, eu estava tocando no Hospital Mater Dei. A direção do hospital adquiriu um piano e deixou-o num saguão de onde o som vaza para muitos andares, e convidou dez pianistas para se apresentarem semanalmente lá, cada um em um dia e horário diferentes. A idéia é trazer alento e alegria para o sofrimento dos pacientes, através da música. Naquele dia, eu estava desanimada, até meio desligada do meu trabalho. De repente chega perto de mim uma senhora com uma caixinha de plástico cheia de docinhos, com um bilhete junto e enfeitada por um lacinho, e me dá aquilo de presente. Ela conta que seu irmão estava internado no hospital havia três meses, e que para ele, nós – os pianistas – éramos como “anjos e fadas”. No bilhete, um agradecimento que me deixou comovida. Depois, ela perguntou quantos pianistas tocavam no hospital, e diante da minha resposta, ela voltou com mais nove caixinhas, que eu deixei na secretaria para todos os meus colegas!

Momentos assim nos ajudam a seguir em frente, com várias certezas: a música vem em primeiro lugar, independente das nossas incertezas, inseguranças e do nosso cansaço; a música é maravilhosa e ela sempre vai atingir as emoções mais profundas das pessoas, fazendo a elas um grande bem, acabando com diferenças; como pianistas e músicos, exercemos um importante papel, trazendo beleza pro mundo e mexendo com as pessoas, ajudando a levantá-las nos momentos mais difíceis; e, finalmente, sejamos nós médicos, advogados, pianistas ou de qualquer outra profissão, nós somos imperfeitos, e é através dessa imperfeição que devemos nos apresentar ao mundo. Aliás, acredito que a grande graça de tudo é essa, a noção da imperfeição. E é justamente isso que dá o gostinho de cada pianista, sejamos nós do Grupo Quinto ou quaisquer outros: o tempero de cada um com uma pitadinha de suas imperfeições…

Post por Bárbara Freitas

Grupo Quinto – Nós e o Piano

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